O Foto do Mês de hoje conecta o meu passado e futuro, me leva a refletir sobre a vida. A foto diante dos seus olhos é mero lembrete de quão efêmeros nós - seres humanos - somos.

Esse é um post adequado a celebrar o Ano Novo e o 6o aniversário do Foto do Mês.

Peço perdão aos deuses da cerveja por não ter lavado bem o fundo do copo, como as bolhas sugerem.

Passado

Voltamos para o ano de 2017. No auge da minha juventude e recém-contratado, fui convidado pela empresa para viajar à Suíça a trabalho. Imagina só a sensação de felicidade e de sucesso, afinal eu ainda estava no começo da curva de Dunning-Kruger e achava que sabia tudo.

Com um pouco de dinheiro nos bolsos, decidi aproveitar ao máximo os finais de semana e noites livres, o que caiu muito bem com o Léo de 24 anos de idade ainda cheio de energia cuja experiência de vida se resumia a alguns poucos lugares do Brasil.

Na época não existia isso de dinheiro digital, e pagar compras internacionais no cartão de crédito era irracional, com taxas abusivas. Lembro que troquei um maço de dinheiro na casa de câmbio. Também não existia essa de eSIM e mesmo um SIM físico para viagem internacional não era tão popular e custava caro, então fui sem 3G/4G (na época era essa a velocidade) mesmo, mas pelo menos o Google Maps já permitia baixar mapas offline.

Enfim, deixarei a história completa para outro dia. Voltando ao tema do blog após essa breve divagação, eis que descobri uma loja na estação de trem de Lucerne chamada Beers of the World. Agora imaginem por um momento que eu estava mais ou menos no auge da minha empolgação por cervejas artesanais na época - talvez no começo do declínio - e logo fiquei tão empolgado com a loja quanto uma criança recebendo presente do Papai Noel. Esse era o meu Beco Diagonal.

É claro que experimentei inúmeras cervejas diferentes nesta viagem, porém um verdadeiro achado foi a Fullers Vintage Ale da safra de 2014. Eu já gostava e admirava a Fullers, em grande parte por causa do livro 1001 Cervejas Para Beber Antes de Morrer e devido à atemporal London Pride, e só havia visto a vintage neste livro.

Ao custo de 10 Francos Suíços, essa cerveja me custou cerca de 30 Reais na época - ou 46 reais corrigidos pelo IPCA. Note-se que hoje em dia eu consigo encontrar essa cerveja em um empório da região e ela costuma custar entre 150 e 350 reais a garrafa, dependendo da safra. Ou seja, foi um baita negócio, ainda mais para alguém no começo da carreira com um orçamento curto.

Adquiri duas garrafas, uma para apreciar com um colega da faculdade - o Zordan - que eu iria visitar em Munique no final da viagem e outra para guardar e envelhecer até uma ocasião importante ou a data limite recomendada para consumo de 2024 - ou 10 anos.

Como na época éramos recém universitários fodidos da cabeça, não fizemos uma degustação propriamente dita. Olhando para trás, hoje eu aprecio mais ainda esse momento pelo contraste que ele trouxe com a segunda degustação realizada anos depois. Mas, ainda no passado, essa é a melhor foto que tenho daquele momento memorável:

Presente

Essa seção se refere ao passado próximo, em Novembro de 2024, quando finalmente degustei a segunda garrafa da Vintage Ale.

Desde então, nestes sete anos e meio que se passaram, tanta coisa mudou na minha vida e no mundo em geral que é até difícil fazer uma lista. Conheci a Natália, fomos morar juntos, e nos casamos. Passei por diversos cargos e experiências na Toradex. Teria eu sido capaz de prever alguma das grandes coisas que aconteceram? Absolutamente não. Sou grato por todas elas - acima de todas pela Natália entrar e ficar na minha vida? Absolutamente sim.

Lembra que meu plano para a cerveja era consumir num momento especial ou na data de validade? Pois é, achei um momento especial para celebrar aos 45 minutos do segundo tempo e este resultou no belo consumo da tão cobiçada cerveja:

Escrevendo esse blog um ano após a degustação, já não me sinto tão confiante em relatar minha experiência sensorial. Quando fecho os olhos e me transporto para aquele momento, consigo lembrar do gosto com alguma precisão - inclusive remontando à época da primeira garrafa lá em 2017 - mas ainda assim deixo essa parte para sua imaginação. Posso dizer com certa confiança que essa cerveja me lembrou uma Barleywine um pouco mais redonda e adocicada e me surpreendi com o fato de a cerveja ter mantido a carbonatação, principalmente por ser vedada com uma tampa dessas tradicionais. Também deixo para sua imaginação o motivo da comemoração e só deixo a pista de que não virei pai na época, não. Também sinto que fui infeliz em não ter comprado ao menos mais uma Vintage Ale para fazer uma degustação vertical, mas o que está feito está feito. A vida ensina.

Dois pensamentos me vem à tona com base nesta experiência:

  • Bons momentos são efêmeros, mas o que sobra deles em memórias é eterno. Em boa medida, são estes momentos - junto com os maus momentos, enfim, aqueles que podemos chamar de marcantes - que nos constroem pouco a pouco ao longo de uma vida.
  • Com esforço e disciplina é possível criar um dia de amanhã extraordinário. Sim, deve-se viver o hoje com intensidade, pois essa é a única certeza da vida, mas ao fazer escolhas devemos também pensar nos inúmeros hojes que teremos pela frente até o Grande Condutor vir nos buscar. Se não tomarmos decisões pensando nestes hojes, estaremos fadados a uma vida aquém do nosso melhor.

Futuro

Aqui estou, com uma bebê a caminho. Ela nem chegou e já é muito querida. Quando me vejo imaginando nosso futuro, vislumbro tantos momentos únicos que nunca antes vivi, desde os mais felizes até aqueles dolorosos aprendizados pelos quais todo ser humano passa ao longo da vida, mas dessa vez como espectador. Sigo comprometido a criar, por vezes até sem intenção, combustível para viver o extraordinário junto de meus amores Clara e Natália, e proporcionar a elas tantas outras oportunidades.

Às vezes me assusto ao pensar que ainda tenho trinta e poucos anos. Se o ciclo da vida correr seu rumo, ainda terei mais uns 60% de tempo pela frente, o que dá uma quantidade enorme de novas experiências em um mundo completamente diferente do que vivo.

No que tange às cervejas, continuarei descobrindo e me aventurando. Afinal, tenho na adega pessoal uma Wee Heavy, uma Hair of the Bode, e uma Double Perigosa, todas da Bodebrown, cervejaria que muito admiro, algumas delas com potencial de guarda de até trinta anos. Que as boas cervejas me acompanhem nessa longa estrada e que o ano de 2026 seja maravilhoso.

Um brinde à vida!